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ACONTECIMIENTOS 2013

MIGUEL FERREIRA

 

 

 

The immigrant, (James Gray, 2013)

2013 – Olhar para trás para seguir em frente.

Em Portugal, olhar para 2013 é recordar a ante-estreia de The Immigrant (James Gray), apresentado no LEFF, em conjunto com uma retrospectiva do mais clássico – mais moderno – dos realizadores de cinema.

Através das palavras de James Gray, abrimos caminho para tudo o que de bom se passou durante o ano. The Immigrant é o mais religioso dos filmes, um filme de pecado, de perdão. Agora, até porque Gray fez questão de dizer que conhece tudo o que é filme italiano, lembramo-nos de Vittorio Cottafavi, descoberto no início do ano, e dos pecados das suas mulheres – Traviata'53, Una Donna Libera, Una Donna ha Ucciso (no fim, Gray admitiu nunca tê-los visto, o que não o impediu de fazer um filme que lhes está tão ligado).

O trio de The Immigrant leva-nos a pensar noutro. Heaven's Gate (Michael Cimino) foi o filme a que mais voltámos em 2013. Mais para trás ainda, conectando a expressão de Cottilard às expressões puras da guardiã do cinema, foi ano também de D.W. Griffith (Birth of a Nation, True Heart Susie).

Que saibamos sempre perdoar, assim como eles souberam. Pelo menos, expulsar um último momento de rancor – como eles, enrolados no negro, antes do poder do plano final (e já agora, o barco que vemos à janela, é o mesmo de Moonfleet (Fritz Lang)?!). Não perdoar é ser escravo e só queremos escapar a tal destino, como Amantha Starr, que o consegue graças a Hamish Bond. Em 2013 percorremos Raoul Walsh, de Regeneration a A Distant Trumpet.

A viver em Lisboa, com o começo da Universidade, a Cinemateca Portuguesa foi a melhor companhia. Pudemos ver Mizoguchi, Ozu, Ulmer, Borzage, Fuller, acompanhar importantes ciclos de Fritz Lang e Claude Lanzmann. Depois de subidos os 39 degraus e de bebida uma cerveja.

A conversa culmina sempre em John Ford. Tudo culmina em John Ford – tudo. Na Cinemateca, Fort Apache. Em casa, The Long Voyage Home. O outro dos grandes filmes de 2013, La Fille de Nulle Part (Jean-Claude Brisseau), lava-nos os olhos com uma morte celestial à beira de uma caixa de Ford at Fox (Gray também tem uma).

A reconciliação e a redenção que buscamos, encontramo-las nos filmes mais intensos, que demonstram a crença e a ligação dos Homens ao que filmam. No ano que passou, também: India Matri Bhumi (Roberto Rossellini), The Mortal Storm (Frank Borzage), The Cardinal (Otto Preminger), As a Wife, as a Woman (Mikio Naruse).

Do ano que passou, também: The Master (Paul Thomas Anderson), Barbara (Christian Petzold), La Madre (Jean-Marie Straub) e as entradas de James Wan no terror (The Conjuring, Insidious: Chapter 2).

No início do ano, No Quarto da Vanda (Pedro Costa) teve, finalmente, a sua edição em DVD, juntamente com um guia de cinema imenso que nos conduz pelo filme que abriu o século XXI para o cinema – e dele não pudemos, não podemos, não poderemos mais sair. No final, foi lançado o caderno de Casa de Lava. Sweet Exorcist passou mais um ano enclausurado (parece-nos próximo).

Chegados ao Natal, temos uns dias para nos fingirmos de férias. Os filmes quentes de Henry King compensam o frio da época. Tol'able David (a humildade e a resignação, num filme que termina para nós com um agradecimento aos céus), David and Bathsheba (o aproximar da cara de Peck, enquanto ouvimos as batalhas e vemos a figura de mulher, de Deusa, que surge do negro), Song of Bernadette (em que passamos a acreditar só porque Bernadette Soubirous acreditou).

Pelo segundo ano consecutivo, escolhemos fechar com Ford – The Wings of Eagles e a nossa Maureen O'Hara; Seargeant Rutledge e o nosso Woody Strode (mas é com Maureen que queremos casar). O pranto de Strode junta-se à confissão de Ewa como outra das cenas vistas em 2013 que não nos larga.

E assim se acaba, em jeito de post-scriptum: Em 2013, Cavaco Silva foi a casa de Manoel de Oliveira, dar-lhe os parabéns pelo seu 106º (e não 105º) aniversário. Em 2013, negaram a Manoel de Oliveira financiamento para os seus novos filmes (Pas d'argent pour faire son cinéma! – Cahiers). A hipocrisia nunca passará por cima do melhor cineasta em actividade. No novo ano teremos, certamente, O Velho do Restelo. Afastemos toda a hipocrisia do cinema.
Que 2014 seja melhor.

 

Miguel Ferreira, estudante da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa