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ACONTECIMIENTOS 2013

VICTOR GUIMARÃES

 

 

 

As I Was Moving Ahead Occasionally I SawBrief Glimpses of Beauty, (Jonas Mekas, 2000)

 

É difícil falar da minha relação com o cinema em 2013 sem dizer, antes, do meu lugar de fala. Vivo em Belo Horizonte, uma cidade que, atualmente, possui uma cinefilia efervescente (que se materializa em esforços hercúleos, em iniciativas minoritárias imprescindíveis, em novos filmes cada vez melhores), mas encontra severas dificuldades para fazê-la florescer em sua plenitude. As estreias internacionais de interesse no circuito comercial são pífias, há pouquíssimos cinemas dedicados às mostras e aos festivais, e o cinema que se vive fora das telas (na rua, nas mesas de bar) é, frequentemente, mais interessante.

Por compromissos de trabalho, fiz pouquíssimas viagens cinéfilas durante o ano: o obrigatório festival de Tiradentes em janeiro (onde se vê o melhor cinema brasileiro contemporâneo), uma curta passagem por Lisboa em maio e uma cobertura do Festival de Brasília pela Cinética. Há de se somar a isso minha paixão inveterada pela tela grande, que me faz nutrir uma renitente preguiça em relação à experiência do cinema nas telinhas da televisão ou do computador. A frase de Chris Marker em Immemory (1997) ainda me parece, quase sempre, vigente: «na televisão [ou no computador, eu acrescentaria] podemos ver a sombra de um filme, o rastro de um filme, a nostalgia, o eco de um filme; mas nunca um filme».

Feito o lamento inevitável, resta o festejo pelas experiências que ficarão para sempre.

 

As imagens de Junho

Pode parecer contraditório com o que disse logo acima, mas contra os fatos dos sentidos, não há argumento lógico que resista. As imagens-movimento que mais transformaram minha maneira de ver e ouvir o mundo em 2013 não aconteceram em uma tela de cinema, mas nas muitas telas de computador por onde vi as transmissões ao vivo das múltiplas insurreições populares que tomaram as ruas das principais cidades do Brasil às vésperas da Copa das Confederações da FIFA. Por conta de uma viagem ao Peru justo à época do início das manifestações, minha maneira de estar presente era acompanhar a sina dos companheiros de militância através da Internet. Nessas telas, descobri mais do que um país que parecia renascer (confuso, tateante, contraditório, vibrante, como todos os acontecimentos históricos cruciais). Descobri um mundo de imagens e sons que recolocava em causa, de forma absurdamente veloz e inexorável, todas as velhas questões sobre o que é o cinema, sobre o que pode o cinema em seu encontro com a vida. Havia algo inédito ali: naquela conexão umbilical entre a carne de quem filma, a carne de quem protesta e a carne das imagens; naquele fora-de-campo nunca antes tão ameaçador; naquelas cenas de caça (ora caçadores, ora presas) que revelavam o conflito brutal entre uma sociedade e seu Estado; naquela vital vizinhança entre espectadores, cineastas e militantes (em poucos minutos, era possível saltar da tela à rua, da rua à tela).

 

Jonas Mekas e Aloysio Raulino, presentes

Dentre os pouquíssimos festivais que resistem aos impérios do dinheiro e da cegueira nesta cidade, o mais imprescindível deles é o forumdoc.bh. Em sua 17ª edição, mais uma vez o meu festival favorito se transfigurou em uma bolha de espaço-tempo cinematográfico por excelência, em uma ocasião privilegiada de ver e rever os filmes que não encontra par em nenhum outro lugar. A retrospectiva dos filmes-diário de Jonas Mekas (da qual destaco uma sessão inesquecível de As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty) foi uma bênção que, mesmo aguardada com toda a ansiedade possível, foi ainda capaz de me surpreender (como disse meu amigo Roberto Cotta, não há outra coisa a concluir: o cinema é Jonas Mekas). Já a retrospectiva do cineasta brasileiro Aloysio Raulino (falecido às vésperas da realização do festival que ele tanto amava e que o homenagearia tão justamente) foi uma espécie de milagre: a exibição de seu único longa-metragem, Noites Paraguayas (1982) colocava toda a cinematografia brasileira em perspectiva; uma única sessão de suas obras-primas em curta-metragem nos anos 1970 nos fazia crer que o cinema havia sido inventado para, um dia, finalmente, nos devolver o olhar incisivo daquelas crianças de Teremos Infância (1974).

Encontros com Nicole Brenez

Dentre os encontros com gente de cinema que tive em 2013, nenhum foi tão marcante quanto aquele com Nicole Brenez, em setembro, durante o 15º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte. Seu curso na Universidade Federal de Minas Gerais (intitulado "Sobre as formas do engajamento cinematográfico") transformou minha maneira de enxergar a história do cinema militante, que já tanto me interessava. A entrevista que tive a oportunidade de fazer com ela para a Cinética foi algo absolutamente decisivo na minha incipiente carreira de crítico.

Wang Bing no Indie

O outro festival mais importante da cidade é o Indie, responsável por nos colocar em contato com o melhor cinema do mundo e suprir algumas lacunas imperdoáveis. Da edição de 2013, destaco a extraordinária retrospectiva de Wang Bing, possivelmente o cineasta mais importante entre os que começaram a filmar neste milênio. Eu conhecia apenas seu inesgotável monumento cinematográfico A Oeste dos Trilhos (Tie Xi Qu, 2003), e poder ver outros filmes extraordinários como a obra-prima Três Irmãs (San Zimei, 2012) – um dos maiores filmes sobre a infância da história, junto com Alemanha Ano Zero de Rossellini e A Infância Nua de Pialat –, o inesperado O Dinheiro do Carvão (Tong Dao, 2009) – que exibe um belíssimo trabalho sonoro – ou as ficções A Vala (Jiabiangou, 2010) e Fábrica de Brutalidade (Brutality Factory, 2007) – que assumem com exuberante liberdade a tarefa de pensar a história recente da China – foi uma oportunidade única de perceber como um estilo inconfundível se afirma vigorosamente, no mesmo movimento em que se reinventa a cada nova obra.

Lisboa à pala de Walsh

Outro fabuloso – e inesperado – conjunto de encontros de 2013 aconteceu em Lisboa, quando tive a oportunidade de conhecer André Dias (que fora uma referência central para minha dissertação de mestrado, e a quem sempre admirei à distância) e alguns dos jovens críticos da revista À Pala de Walsh – Luís Mendonça, Carlos Natálio, Sabrina D. Marques –, que logo se tornaram grandes amigos. Se Portugal produz o melhor cinema do mundo já há várias décadas, bastam algumas conversas (e alguns copos) para perceber o quanto essa proeza deve à força de sua cinefilia.

Minelli em Paris

Nessa mesma viagem a Lisboa, tive a oportunidade de passar um dia em Paris, por conta de uma conexão aérea. Foi a oportunidade perfeita para uma rápida ida ao Le Desperado para uma sessão de Brigadoon (1954), de Vincente Minelli. Minelli segue sendo um dos maiores arquitetos da magia do cinema, e o Quartier Latin é o lugar perfeito para degustar suas delícias.

Pialat no Cine Humberto Mauro

Já há vários anos, o Cine Humberto Mauro é minha segunda casa em BH (como é a de todos os cinéfilos da cidade). Ver uma retrospectiva quase integral dos filmes de Maurice Pialat em um lugar tão especial produz um resultado fulminante: torna-o, ao final do ciclo, um dos maiores cineastas da história (para mim, ao menos).

Paralelamente a esses acontecimentos marcantes, havia os filmes recentes, vistos em ocasiões diversas, sempre em salas de cinema. Deixo aqui uma pequena lista das experiências mais intensas de 2013.


1. Três Irmãs (San Zimei), de Wang Bing
2. Caminho Para o Nada (Road To Nowhere), de Monte Hellman
3. El Ruído de las Estrellas me Aturde, de Teddy Williams
4. Estranhos Quando nos Encontramos (Strangers When We Meet), de Masahiro Kobayashi
5. Prisons, de Clarisse Hahn
6. História De Minha Morte (Historia de la Meva Mort), de Albert Serra
7. Doce Amianto, de Guto Parente e Uirá dos Reis
8. Amor Profundo (The Deep Blue Sea), de Terence Davies
9. Exilados do Vulcão, de Paula Gaitán
10. Outtakes From the Life of a Happy Man, de Jonas Mekas
11. Bastardos (Les Salauds), de Claire Denis
12. O Som Ao Redor, de Kleber Medonça Filho
13. Isto Não é um Filme, de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb
14. Educação Sentimental, de Julio Bressane
15. Mauro em Caiena, de Leonardo Mouramateus
16. Vocês Ainda Não Viram Nada (Vous N'avez Encore Rien Vu), de Alain Resnais
17. A Visitante Francesa (Da-reun na-ra-e-seo), de Hong Sang-soo
18. Avanti Popolo, de Michael Warmann
19. Esse Amor Que Nos Consome, de Allan Ribeiro
20. O Vôo (The Flight), de Robert Zemeckis
21. No, de Pablo Larraín
22. O Mestre (The Master), de Paul Thomas Anderson
23. A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty), de Kathryn Bigelow
24. O Porto (Le Havre), de Aki Kaurismäki
25. Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. August), de Joachim Trier

 

Victor Guimarães (Brasil) é pesquisador, curador e crítico de cinema. Escreve regularmente para a revista Cinética e integrou as comissões de seleção do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte e do forumdoc.bh. Foi curador da mostra Políticas do Cinema Moderno (SESC Palladium) e tem artigos publicados em revistas como Devires (Brasil), Doc Online (Portugal) e Imagofagia (Argentina).