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ACONTECIMIENTOS 2013

MATHEUS KERNISKI

 

 

 

Educação Sentimental, (Julio Bressane, 2013).

 

Antes de tudo, convém a ressalva de como é difícil para mim pensar nos acontecimentos de 2013 com os espectros dos filmes ainda não vistos de James Gray, Philippe Garrel, e Andrea Tonacci e julgar as minhas escolhas como marcas fiéis do que o ano foi capaz de oferecer. Outro exemplo da defasagem na distribuição de filmes no Brasil, e sobretudo nas cidades periféricas dos circuitos de cinema, é o caso de O Estranho Caso de Angélica. O filme foi uma das estréias de 2013 no Brasil, ainda que tenha sido um acontecimento em outros meios e mídias com dois anos de antecedência. Um filme de outrora apenas agora plenamente consumado, na sua maneira original revela o impasse proveniente do descompasso entre um sistema de exibição que prioriza lançamentos essencialmente comerciais e cinéfilos que fogem dessas expectativas, cujo desenlace encontra-se na espera.

Concluído esse breve panorama descrito no parágrafo acima, posso dizer que os dois grandes acontecimentos cinematográficos do ano que presenciei foram La fille de nulle part (Jean-Claude Brisseau) e Educação Sentimental (Júlio Bressane). São filmes assinados por dois cineastas que pertencem à mesma geração, últimos de uma linhagem. Nasceram enquanto artistas com o cinema moderno e souberam assimilar o cinema de sua época, renová-lo e, até mesmo, rompê-lo. Não por acaso, a iminência do fim é uma constância dos filmes. Obras sobre solidões e a pedagogia afetiva dos encontros, dispostas em empolgantes espirais internas que levam o projeto de seus realizadores ao limite oposto do cinismo fácil e das invenções mais questionáveis do cinema atual, que tendem a preceder em forma ou em verdades assinaladas de mundo o próprio reencontro consigo e com o mundo retratado (feito com “papelões” nada generosos a uma experiência propriamente dita).

A leitura de Degas Danse Dessin de Paul Valéry foi esclarecedora, ao estudar aqueles que preconizam a crítica cinematográfica por estarem pensando a arte muito antes do advento do cinematógrafo. "Ocorre-me por vezes de achar que o trabalho do artista é um tipo muito antigo de trabalho; o próprio artista é uma sobrevivência, um operário ou artesão de uma espécie em vias de extinção, que fabrica fechado em seu quarto, usa procedimentos muito pessoais e muito empíricos, vive na desordem e na intimidade de suas ferramentas, vê o que quer e não o que o cerca, usa potes quebrados, sucata doméstica, objetos condenados...". Não seria esse excerto do livro uma perfeita descrição do apartamento do Brisseau em seu último filme e de todo o sentimento aderente na feitura do último Bressane? E ainda: desses cineastas como Oliveira, Hong Sang-Soo e De Palma que abraçam uma frugalidade de recursos, dando assim ensejo para a persistência de seus meios, idéias, anseios? Assim, e através de outros paralelos, o livro de Valéry sobre Degas foi o grande livro de cinema lido esse ano.


2013 em cinco filmes:

1. La fille de nulle part, de Jean-Claude Brisseau

2. Educação Sentimental, de Júlio Bressane

3. O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira

4. Nobody’s Daughter Haewon, de Hong Sang-Soo

5. Passion, de Brian De Palma

 

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Matheus Kerniski é estudante de cinema.