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ACONTECIMIENTOS 2013

FILIPE FURTADO

 

 

 

The Most Dangerous Man Alive!, (Allan Dwan, 1959-1961).

2013 em alguns momentos:

-- Meu ano cinéfilo começa e termina com longos mergulhos em filmografia de dois grandes exploradores da paisagem e história do cinema americano, Allan Dwan e James Benning, por conta de dois dossiers, o primeiro publicado aqui na Lumière e outro na Cinética. O convite ao primeiro após uma dúzia de cervejas num bar de São Paulo com o David Phelps e a decisão do segundo após uma reunião de Skype com meu co-editor na Cinética Fabio Andrade. Do trabalho ao prazer: cerca de cinquenta filmes de Allan Dwan para abrir o ano e duas dúzias de filmes de James Benning para encerrá-lo. Percursos diferentes pela paisagem: Dwan encara com a mesma firmeza de olhar e sentimento de descoberta o D’Artagnan moderno de Douglas Fairbanks em A Modern Musketeer (1917) ao Most Dangerous Man Alive (1961) de Ron Randell. A despeito de toda a matemática de seus jogos estruturais e do sempre notável trabalho com o tempo é este mesmo curiosidade de explorador e precisão de arquiteto que tornam Benning de 11x14 (1976) a Stemple Pass (2012) um cineasta essencial. Afinal, seriam Tide of Empire (1929) e RR (2007), para ficarmos em duas explorações da ida ao oeste, tão distantes assim?

-- Em meio a uma crise grave, misto de má administração institucional e um governo federal cuja lógica desenvolvimentista leva a termos um ministério da indústria cultural no lugar de um ministério da cultura, a Cinemateca Brasileira começou 2013 com uma retrospectiva em homenagem a Carlos Reichenbach. A intriga política fora do cinema, responde-se com os filmes deste artista generoso que antes de tudo acreditava que o cinema permitia expressar a liberdade do homem e cujo Filme Demência (1986) transformava a história de Fausto num travelogo sobre as miragens do desenvolvimentismo brasileiro.

-- Na falta de uma nova obra prima de Manoel de Oliveira, lá estava Alain Resnais pronto para ir além das explorações cênicas que dominaram sua obra a partir de Melo (1986). Mais do que dar corpo a palavras esquecidas e/ou pouco consideradas como em muitos dos seus filmes dos últimos 25 anos, Resnais mergulha numa ficção assombrada pelo espectro da morte para melhor regenera-la. Ao editar um dos primeiros textos de Jean Anouilh a um dos seus últimos, Resnais busca mais uma ponte, uma passagem entre a exuberância da criação inicial e a reflexão da fase tardia, o jovem dramaturgo respondendo ao apelo do velho. Todo ano precisa do seu filme que nos deixe com olhos limpos.

-- Acompanhar pelo Facebook noticia dos conflitos entre manifestantes e policia, primeiro em São Paulo e depois no resto do país enquanto estava em Ouro Preto, uma cidade mais conhecida como o centro histórico da produção de ouro durante o nosso período colonial, para um festival de cinema histórico cujo tema era os 49 anos do golpe militar de 1964 (ponto alto: rever El Justicero, grande comédia de costumes sexuais que permanece o filme mais subestimado de Nelson Pereira dos Santos).

-- As semanas improváveis em Julho nas quais São Paulo foi tomado por retrospectivas simultâneas de Howard Hawks e Jacques Rivette. Ponto alto do renascimento nos últimos anos do circuito de repertório da cidade, num ano que já tivera retrospectivas de nomes como Jonas Mekas e Samuel Fuller e veria ainda outras retrospectivas importantes como as de Jean-Claude Brisseau e Wang Bing. Por duas semanas recuperava-se o sentimento angustiante de escolher que obra prima perder. Não que seja um renascimento sem suas dores de cabeça, os projecionistas do cinema que exibia Hawks sofriam com a necessidade de exibir filmes em película diariamente por duas semanas após anos de descaso de programação (aparentemente o projetor de 16mm foi usado pela primeira vez em meia década).

No meio disso um dia especial se destaca: Duelle, ponto alto da fantasia de Rivette às 11 da manhã, seguido algumas horas depois pela possibilidade de descer duas quadras de um centro cultural de banco estatal para outro e descobrir A Vingança de uma Mulher de Rita Azevedo Gomes, que naquele dia parecia completa-lo perfeitamente. Dias depois, Rita me pergunta se projeção (numa pequena sala improvisada de um centro cultural que não tem propriamente um cinema) que tanto lhe angustiou fora aceitável, respondo-lhe que “foi ao menos melhor do que vê-lo em casa”.

-- Nestes tempos em que Criterion e Masters of Cinema definem o que é parte do cânone e a disponibilidade no Karagarga é essencial para a circulação de obras menos conhecidas e Festival Scope e Vimeo se tornaram meios centras de difusão de cinema independente parece-me valido um intervalo para listar grandes filmes descobertos em casa: Blessed Event (Roy Del Ruth), Dragnet Girl (Yasujiro Ozu), The Shanghai Gesture (Josef Von Sternberg), Strange Illusion (Edgar G. Ulmer), Moonrise (Frank Borzage), The Lawless (Joseph Losey), No Man of Her Own (Mitchel Leisen), Kansas City Confidential (Phil Karlson), Stranger on a Horseback (Jacques Tourneur), Alyonka (Boris Barnet), A Time for Dying (Budd Boetticher), The Nineteen’s Year-Old Map (Mitsuo Yanagimachi), Simone Barbes ou la Virtue (Marie Claude Treillou), Himala (ishmael Bernal), Routine Pleasures (Jean-Pierre Gorin), Dial H-I-S-T-O-R-Y (Johan Grimonprez), Gloria (Manuela Viegas), *Corpus Collosum (Michael Snow), Les Jours où je n’Existe Pas (Jean-Charles Fitoussi), True Woman for Sale (Herman Yau)

-- O Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro acontece em meio a uma greve de professores que gerou conflitos diários entre grevistas e simpatizantes com a polícia. Acompanhar um festival numa cidade sitiada é ser tomado pelo questionamento diário se deve-se ou não assistir e escrever sobre filmes. Chegar pouco mais da meia noite ao apartamento da amiga no qual está hospedado e ouvir dela “ainda bem que você chegou, estava preocupada”. São quase todos os filmes que parecem maus ou você simplesmente quer estar bem longe dali? Dois momentos oportunos sobre o encontro/desencontro entre o cinema e o seu entorno: a decisão do Festival de mover suas sessões de gala do antigo cinema de centro que tradicionalmente as recebe para um muito menor cinema num dos bairros mais nobres da cidade longe da rota dos grevistas (e no processo torna-las exclusivas para convidados). Do outro lado, os dois jovens curta-metragistas que resolvem boicotar a própria exibição e enviar no lugar uma carta explicando porque eles optaram por passar a noite junto aos grevistas e cuja republicação no dia seguinte no meio da cobertura do evento no maior jornal do Rio é provavelmente o mais próximo que a imprensa local esteve de dar voz aos grevistas.

Tudo isso certamente emprestou urgência maior aos bons filmes que por lá estavam: o reencontro com o lado mais cruel e direto de Hong Sang-Soo em Nobody’s Daughter Haewon e Our Sunhi, a extensão da investigação histórica de Claude Lanzmann em Le Dernier des Injustes, o verdadeiro manifesto pelo poder sensual da imagem de cinema que é Educação Sentimental de Júlio Bressane (não por acidente o único filme visto no festival em 35mm), a retomada griffitiana de James Gray em The Immigrant (cinema de revitalização da ficção que daria uma bela sessão dupla com o filme de Resnais) e Tip Top, o ensaio cômico sobre o que optamos por ver de Serge Bozon, possivelmente o filme mais subestimado de 2013.

Duas semanas depois de volta a São Paulo o epilogo improvável: encontrar um amigo na saída de Vers Madrid de Sylvain George que comenta “eles deveriam dublar o filme em português e lança-lo por aqui”. Um lembrete de que a violência de discurso do poder é a mesma em todo lugar.

-- Na tentativa de marcar uma entrevista driblando a burocracia do evento, encontrar Lav Diaz, autor de um dos melhores filmes do ano, Norte, The End of History, na saída de outro, Stray Dogs de Tsai Ming Liang, e brincar com ele sobre ter escolhido o filme certo para assistir legendado em português e receber como resposta um sorriso afirmativo.

-- O ponto alto da Mostra de Cinema de São Paulo (a parte a retrospectiva de Diaz) sem dúvidas foi à exibição de E Agora? Lembra-me, o belo diário de Joaquim Pinto sobre sobreviver diante da próxima da morte. Diante de um dilema, da incerteza da vida, segue a necessidade de uma afirmação, a crença de que o cinema pode nos ajudar a colocar uma perspectiva maior sobre as coisas. Um filme que realiza um gesto de abertura e generosidade cada vez mais raro. O filme diário de Pinto foi o ponto alto de mais um ano que faz valer a vitalidade do cinema português a despeito da crise econômica do país. Poucos dias depois porém, a má noticia de que Manoel de Oliveira não conseguia encontrar meios para realizar seu novo filme. Da força de exceção de E Agora? Lembra-me, somos trazidos de forma soturna à lembrança da fragilidade do cinema.

- Um último epilogo: 29 de Dezembro, minhas últimas sessões de cinema do ano cortesia da retrospectiva de Maurice Pialat: Nous ne Vieillirons pas Ensemble(1972) e Le Garçu (1995), dois dos grandes filmes autobiográficos do mestre francês. Há algo de reconfortante em meio a tantas crises e desvios, de estar ali de volta a sala de cinema a observar Gerard Depardieu admirado com a vitalidade do filho fazendo pela última vez a função de alter ego de Maurice Pialat que parece realizar o filme para que ele próprio possa registrar seu espanto e prazer com a presença do seu filho Antoine, eternizado em 1995 e 2013 com seus quatro anos de idade. Antoine brinca num balcão de restaurante e o plano de Pialat exprime de uma só vez todo o misto de incerteza e esperança da paternidade.

 

"Filipe Furtado é um cinéfilo que vive em São Paulo. É editor da Revista Cinética e do blog Anotações de um Cinéfilo."