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ACONTECIMIENTOS 2013

RICARDO LESSA FILHO

 

 

 

 

1. 2013: The Year of the Dragon

A imagem enquanto organismo, enquanto pauta de uma vida em que o odor do suspiro é sentido nas galáxias do cinema – neste espaço de gestos, a arquitetura do que se vê é, finalmente, alçada ao berço de seu nascimento, de sua origem. É neste versículo da imagem, da qualidade do que é enxergado que o ano de 2013 me possibilitou a redescoberta de filmes-limítrofes, de filmes-galáxias recapturados e restaurados naquilo em que hoje mais se aproxima da exatidão e da dimensão da originalidade da película em 35mm para o home video: o blu-ray, o high-definition, a definição que satura e faz a imagem pulsar uma vida até então desconhecida nos formatos pós-modernos de projeção (VHS e DVD) em nossa sala de estar. A “sujeira” da imagem, os vestígios que organizam o sentido de sua existência recuperou com o blu-ray a força de seu nascimento. E de todos os filmes lançados ou disponibilizados neste formato de raio azul, os filmes da década de 1980, me parecem, terem sidos as fagulhas mais reluzentes no tocante a recuperação de uma certa aura da efígie perdida, molestada e pervertida pelas compilações dos filmes em película em formatos de home video. Dito isso, dois filmes oitentistas foram as grandes estrelas ressucitadas das constelações das imagens tétricas desse “cinema em casa”. E nesse relato dividi os acontecimentos que mais me marcaram no ano passado em três atos (os filmes; as pequenas revoluções e o renascimento do cinema de Alagoas assim como as minhas conquistas pessoais):

 

Year of the Dragon (1985), de Michael Cimino

As pegadas e os rastros de um homem cuja convicção sobre o mundo é como uma pólvora rodeada de fagulhas e estilhaços de fogo: a brisa mais sutil é capaz de incendiá-lo, de fazê-lo ebulir a graus incontornáveis. Este homem cuja cesura da vida é um movimento inextinguível de perversão da moral, do afeto e do corpo. White (Mickey Rourke) carrega consigo a definição do branco, da transparência de um descedente polonês, e é nesse englobamento que Cimino traduz os laços e codificações racistas de seu personagem, uma cratera pelágica de ódio e repúdio aos organismos da vida e de suas discrepâncias, é neste antiafeto que o cineasta condensa diversos dos raccords mais perversos e mortíferos de todo um completo decênio de cinema; Rourke é uma metamorfose ambulante, exala a fúria e o desespero para impedir a morte e o seu cadáver da consumação final que extrapola o plano e a montagem – é neste intermédio, na cena da cozinha onde sua mulher, pulverizando o pouco de orgulho que ainda lhe restava diz que o ama, e num átimo, num fechar de portas segundos depois, no som de quatrou ou cinco passos após, vemos essa mulher que revelara o amor final ao seu amado ser brutalmente assassinada, e essa révélation traz consigo o tom lúgubre da morte; e então Rourke se metarmofoseia em homem-pólvara e sai em disparada para capturar os assassinos de sua mulher, explode as portas, o próprio corpo banhado ao sangue furioso e inextinguível da revanche; encontra-os, explodidos dentro do carro que captaram a fuga, e ardendo em chamas aqueles assassinos já cadavéricos, para Rourke não é motivo suficiente de vingança: de homem-pólvara ele se transforma em homem-fogo e assim, num total gesto de desequilíbrio, ele invade aquele carro em chamas e tenta, desesperadamente, recolher os cadáveres carbonizados dos assassinos: a dupla chama que arde (dentro dele como ódio e por revanchismo e nos criminosos por fora, pelo exterior do corpo) parece, finalmente, cristalizar a perversão de White: a morte dos outros não lhe é suficiente, é necessário, sobretudo, que ele os mate de novo, seja, de fato, o autor intelectual e partícipe, que seja, portanto, o assassino da própria morte. White consome e é consumido por todos ao seu redor. E na Chinatown de Cimino é a raça que se funde, que anteprojeta o próprio racismo em si, e que é devorada, também, pelo próprio preconceito que alimenta.

Ter tido a chance de finalmente assistir essa obra-prima absoluta de Cimino em alta definição me ajudou a comprovar o resgate essencial que o blu-ray faz sobre as folhas e rojões do chiaroscuro do cinema da década de 1980: o jogo essencialmente tétrico entre sombra e luz, os realçes que o fullhd concede, como que desterrando as pinturas sagradas empoeiradas pelo tempo e instaladas no VHS e no DVD, possibilita a este filme uma espécie de recuperação milimétrica da projeção original, dos odores e imperfeições perfeitas dos filmes em 35mm: os poros das faces, as lúnulas manchadas, sujas de sangue e de desespero dos personagens redimensionam o filme para um patamar ainda maior. A constelação em que se insere Year of the Dragon permanece resplandecendo na esteira do tempo, e tal como uma estrela cadente que simboliza o desejo mais profundo do homem, mas que ao pressentir o pedido para a realização do desejo esvanece-se no horizonte negro da noite, o filme de Michael Cimino só pode ser desejado pelos olhos agora em 35mm ou em high definition, de outro modo, ele será sempre um ponto de luz, mas nunca uma estrela (cadente ou fulgurante), será, como no maravilhoso título de uma (outra) obra-prima dirigida por Ritwik Ghatak: The Cloud Capped-Star – e era isso que Year of the Dragon era antes de sua existência em alta definição: uma estrela ofuscada pela “nuvem”.


Robocop (1987), de Paul Verhoeven

Com o lançamento do remake de Robocop dirigido pelo brasileiro José Padilha (diretor que merece total desconfiança, não pelas habilidades dos dispositivos cinematográficos, senão pela sua assustadora concepção de mundo: Padilha possui resquícios perigosos da elite e de um certo protofascismo que ele parece, a cada novo filme – lembremos de seus últimos dois trabalhos Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 – amplificar, não enquanto conceitualização, mas antes para a práxis, para o gesto empírico do homem que mata, que extermina a todo custo o homem negro, pobre e marginalizado e com isso recebe status de herói, de lenda. Ainda não pude ver o Robocop de Padilha, mas ter revisto o filme de Verhoeven à altura da alta definição foi como redescobrir enigmas há muito camuflados, como hálitos de um submundo que finalmente depois de tantas tentativas de transformação finalmente é sentido em seu odor mais minúsculo. É um filme sobre a catástrofe do porvir, ou seja, o cineasta holandês em 1987 antecipa a falência da cidade de Detroit (oficializada em 2013) revestida, em seu filme, de artefatos tecnológicos, dessa tecnologia que faz com que a humanidade colida em sua própria impossibilidade de responder não somente as perguntas instaladas por ela mesma, mas sobretudo, realça a incapacidade de um gesto diminuto de compreensão sobre as diferenças, sobre os corações diversos que habitam nesta humanidade. Num sentido de perversão completa, Verhoeven usa essa tecnologia e essa busca pela superação da mente e do corpo humano para subscrever com exímio sucesso a obliteração dos princípios desses homens da política, desses governantes em que a mesquinhez é instalada sobre seus alicerces e silhuetas, devastando por completo a aura, esta grande molécula de humanidade. E Robocop é um filme que dialoga com o futuro, e é um futuro, portanto, que Verhoeven já sentia àquela altura a percorrer, e o que ele mostrou com o seu filme é o produto final (e assustadoramente abstruso) de uma síntese pessoal vinculada em seu imaginário e que, como num passe de mágica de vestígios demoníacos, instaurou-se no mundo (e sobretudo na cidade de Detroit) como um abscesso de ódio e revanche.

E as sombras do filme (porque sobretudo a década de 1980 foi um período de sombras em tantos caminhos possíveis: no rock and roll de bandas como The Smiths, The Cure, Slowdive, REM, etc; no cinema que além de Cimino e Verhoeven contou com Friedkin, Kaufman, Vecchiali, Carpenter, Ferrara, todos esses e diversos outros não citados, cineastas de relações tétricas com o chioroscuro) remontam todas as camadas de um horror, de um horror que se extende através do horizonte, e que parece uma chave de leitura primordial para um primeiro ato de compreensão das fagulhas de intolerância que assalta a nossa época. É este amedrontamento, é esta infelicidade de partilhar um mundo repleto de horror que Robocop merece ser redescoberto preferencialmente pela alta definição: porque é necessário enxergar esse horror que se aglomera na imensidão do tempo com todas as suas partículas de sombras e luzes, de metais e carne, de morte e vida, de esperanças e tragédias.

E porque, dentre tantas coisas extraordinárias disponíveis em blu-ray no ano de 2013 decidi escolher dois filmes da década de 1980? Porque finalmente consegui desvendar os grãos dos filmes da década em que nasci. É o berço da minha existência. Esses filmes são, de fato, a origem de meu tempo enquanto homem, e redescobri-los em imagens tão vivas, tão nítidas ao mesmo tempo que ainda preservadas suas “sujeiras” e a profundidade da epiderme das fisionomias ali projetadas foram sem dúvida alguma o grande acontecimento do cinema em 2013.

 

2. Brasil: os gestos da esperança e dos minúsculos universos de uma revolução

Se você não for cuidadoso, a imprensa fará você odiar os oprimidos e amar os opressores
- Malcom X

Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é se tornar o opressor
- Paulo Freire

Serge Daney disse certa vez que a diferença entre a imagem e o visual é, sobretudo, prolongada pela experiência da visão: o visual é uma operação óptica do procedimento do poder, e a imagem é aquilo que resiste contra esse procedimento, isto é, que permanece após seu próprio fim. 2013 foi um ano de imagens para o Brasil. Um ano, portanto, em que a lacuna de minúsculos universos de uma revolução foram preenchidas. Foi impossível naqueles dias primaveris não sentir a pulsação de um sonho cantante entre as ladeiras do país: ali residiu o que mais de humano poderia residir, ali, nos pequenos artifícios onde o gesto da humanidade alcança o infinito, reacendeu à altura da história a necessidade de mudar os caminhos escolhidos pelos corruptos de todos os tipos, pelos políticos de todas as estirpes: passagens de ônibus caríssimas, educação precária, hospitais em condições repugnantes, corrupção, indiferença à vida. Mas durante esse tempo, porém, o grande inimigo desses universos de revoluções foi justamente a grande mídia (televisa e impressa) que por diversas vezes tentou deslegitimar essas tentativas de recolocações da história. As milhões de vozes que saíram às ruas, para essa elite midiática, não tinham um “sentido” pelo qual lutar porque o Brasil não tinha um motivo para ser recuperado. As oligarquias da televisão trataram a todo custo de minimizar o sonho e o desejo compartilhado, pela primeira vez desde 1990, do povo, porque essas contrações de corações e corpos nas ruas foram promovidas pelo povo, e somente ele é o verdadeiro dono e herói da história.

Mas com os políticos finalmente se rendendo a certas imposições dos grupos de frente dessas manifestações (prefiro o termo: pequenas revoluções), o povo começou a diminuir suas idas às ruas. As pequenas revoluções cessaram por ora. Mas a certeza de que algo realmente fez tremer os pilares corruptos, de que algo, como num eflúvio compartilhado por seres humanos repletos de esperança, mudou o jogo e ajudou, de algum modo, a reescrever uma parte da história. Mas se citei Daney é justamente para apontar o grau nefasto da jogatina inescrupulosa da grande mídia: eles tinham discrepâncias na abordagem da temática bastante visível: a elite, vinculada à truculência da Polícia Militar, absorve o que é dito por essa imprensa branca: os “terroristas” são todos aqueles que estão nas ruas lutando por aquilo que lhes foram arrancados há quinhentos anos: uma nação. Essa é a “imagem” que a mídia da elite se utiliza, é esse gesto, essa arquitetura do nada, que equivale ao que Daney chamou de resistência da experiência da visão (imagem), porque sendo uma espécie de contracampo à visão ou ao visual, à imagem não é elidida, ela é o fragmento que permanecerá após tudo. E é essa imagem que resiste (do povo enquanto terrorista; da deslegitimação do resgate dos direitos da população) e que se perpetuará como memória para o futuro: a perversão por parte da grande mídia dos verdadeiros anseios desses minúsculos universos revolucionários. De fato, a revolução não será televisionada.


3. Alagoas: o cinema que renasce e a profundeza da escrita (na crítica e na academia)

- SEDA – Semana do Audiovisual de Arapiraca: na contínua experiência dessa retomada da realização de filmes no estado de Alagoas, esse pequeno festival organizado na segunda maior cidade (Arapiraca) do estado possibilitou encontros e sensações desconhecidas. Ter dividido o mesmo quarto com dois amigos cinéfilos e críticos (Ranieri Brandão do Filmologia e Paulo Santos Lima da Revista Cinética) me fez redescobrir uma espécie de condenação: estávamos ali, naquele pequeno quarto de tons clandestinos, presos a esta aura de que, por tantos caminhos possíveis, somente o cinema nos possibilitaria sonhar com o futuro, mas um futuro condenado em que a imagem de cinema se postava como a única esperança possível. Jogos de alteridade nos ligavam. Nesse meio tempo pequenos curtas metragens nos eram inseridos pelos glóbulos. E aquela sensação irreversível de que, finalmente, Alagoas estava, de modo ainda iniciático, mas com uma potência incomum, a produzir filmes, a tentar buscar um olhar próprio de gestos que inspirem uma história em construção. Aqueles dias em Arapiraca me ensinaram (e aos outros dois desconfio que também) uma sagrada contribuição do afeto: de que é no suspiro dos sorrisos e no hálito dos olhos que uma amizade se constrói e sobrevive por sobre todas as coisas do mundo.

- Mestrado em Comunicação Social: 2013 marcou essa etapa ímpar para mim em particular. Fui aprovado para iniciar em Março de 2014 os estudos dedicados à estética do som e da imagem na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) sob orientação da professora Angela Prysthon. E continuando a “condenação” citada no tópico acima, foi o cinema meu único modo de me ver nesse futuro breve, e não existia outra saída a não ser levá-lo comigo. O mestrado foi este gesto de esperança para o meu futuro: finalmente poder fazer e viver de algo em que ele, o cinema, seja o leitmotiv final. E é nessa profundeza da escrita que tanto o mestrado e o Filmologia se tornaram órgãos essenciais na composição de minhas moléculas: escrever para sentir o mundo e possibilitar as linhas de alteridade como centelhas de expectação, como tons maiores de uma vida que se expande à altura do horizonte. Escrever sobre cinema para viver, e também, para morrer morosamente a cada retorno de espiral da vida. E assim continuo: padecendo de flagelos da alma, em que a crítica de cinema me possibilita uma força de combate à mediocridade dos sentidos e dos gestos, sobretudo.


Um breve posfácio

Se utilizei tanto dos temos como “esperança”, “horror”, “gesto”, “afeto”, “alteridade”, é porque essas significações (e tantas outras espalhadas nesse relato) me parecem interligar todos esses projetos de visão e entendimento do que mais me marcaram em 2013. Year of The Dragon de algum modo sintetiza os minúsculos universos de revolução acontecidos nas ruas brasileiras em 2013: a fúria percapita do personagem de Rourke é uma efigie da violência e do descontrole de uma polícia (afinal, ele é policial) em que a latente intolerância se torna uma presença perversa. Os gestos de intolerância de Rourke são assumidos, de algum modo, à nódoa do despreparo e da inferiorização do outro – desse gesto de aniquilar a alteridade, de pulverizá-la de um modo irrastreável.

Robocop, por sua vez, é a instauração final (mesmo realizado há quase trinta anos) da corrupção, da satírica urgência e do desespero dos dias de hoje e que depois de consumir e exigir tudo e todos, já não consegue enxergar outros caminhos possíveis de restauração para esse mundo e para homem desse tempo. O senso do grotesco que Verhoeven instalou em 1987, o suspiro do horror que parecia contaminar todos os poros do filme é em essência o que é vivido hoje no Brasil (a população tentando fazer justiça contra as próprias mãos, este ódio incompreensível, esses germes do fascismo que crescem violentamente a cada dia mesmo dentro das pessoas do “bem”). De fato, Robocop é um filme-síntese da incapacidade que o governo (americano, latino ou europeu) tem em dialogar com o seu próprio povo.

Cimino e Verhoeven fizeram duas obras absolutamente contemporâneas a mim mesmo (nasci em 1987). São esses filmes (e outras obras extraordinárias também relançadas em blu-ray como “The Right Stuff”, “To Live and Die in LA” etc) que são verdadeiramente as grandes realizações de contemporaneidade para mim. Ver ou revê-los me ensinou a entender todos os artifícios, equívocos e acertos de uma década em que a minha vida se fez matéria.

E em 2014 com a Copa do Mundo de Futebol prestes a acontecer no Brasil (com os desvios de verba, com as corrupções em níveis nunca antes presenciados no país), mais filmes, espero, serão redescobertos e sintetizarão, de algum modo, o pavor de dividir a vida num supremo capitalismo do horror.

 

Ricardo Lessa Filho, vinte seis anos de idade, mestrando em Comunicação Social, co-fundador e redator do site Filmologia.