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ACONTECIMIENTOS 2013

LUÍS MIGUEL OLIVEIRA

 

 

 

Passion, (Brian de Palma, 2012)

 

2013

Em 1966, na sequência da proibição de “La Religieuse” de Rivette, Godard escreveu a André Malraux, então Ministro da Cultura, evocando “um país longínquo, a França livre”. Lembrei-me disto enquanto tentava pensar em alguma coisa boa de 2013. “Portugal livre” também se tornou um país longínquo; onde vivemos é num “Portugal-refém”, refém de um programa de “ajustamento económico” que apenas beneficia internamente a meia-dúzia de grandes empresas (da banca, das comunicações, dos serviços básicos como a electricidade) que de facto controla o país e decide o que se faz e não se faz, e como se faz o que se faz ou não se faz. Mas o “ajustamento económico” também implica uma medida de “ajustamento cultural”, uma revolução cultural-zinha que encontrou, num território “mediático” crescentemente acrítico e subserviente, terreno fértil para frutificar – e tornar a atmosfera deste país cada vez mais irrespirável. Dizia-me há poucos dias um colega crítico de cinema que, no jornal dele, a nova orientação é para que se entenda o caderno cultural como um “guia de consumo”. Creio que não há muitas dúvidas sobre o que o futuro reserva.

Como o consumo manda, não espanta que, por entre as toneladas de informação e “debate” sobre o futebol (o tema que as televisões portuguesas mais gosto têm em servir aos seus “consumidores”), se tenha falado sobretudo de um filme, o filme mais “consumido” nas salas portuguesas em 2013: “A Gaiola Dourada”, uma comédia medíocre sobre a imigração portuguesa em França, que apoiada numa esmagadora campanha de publicidade/informação (há pouca diferença actualmente) chamou centenas de milhares de espectadores. Ao pé disto, tudo o resto é “underground”.

E o cinema é cada vez mais uma questão “underground” em Portugal. As pequenas distribuidoras independentes sobrevivem, sempre no fio da navalha, enquanto o parque de salas, cada vez mais estreito e menos receptivo, se torna um grande mostruário do Mesmo. Para encontrar um pequeno Brisseau é preciso atravessar uma floresta de Harry Potters. A distribuição e a exibição “alternativas” (palavra que detesto e consequentemente ponho entre aspas) estão reduzidas à mais mínima expressão em décadas. Se consultarmos um cartaz de cinema dos anos 60 ou 70, época de censura política em Portugal, facilmente constatamos que havia então uma oferta mais diversificada. Longe de mim sugerir que no tempo da ditadura é que se estava bem – quero apenas frisar que a censura comercial pode ser tão devastadora como a censura política. Em certos casos, mais devastadora ainda.

Restam os festivais e as mostras, que florescem (em número), variando entre uma meia-dúzia bem pensada em termos de coerência e uma infinidade de manifestações totalmente irrelevantes, que apenas existem para prolongar a ilusão de que em Portugal existe uma “dinâmica cultural”.

E resta a Cinemateca, onde tenho a (in)felicidade de trabalhar, enredada em problemas orçamentais e burocráticos ainda sem fim à vista, que fortemente limitam a capacidade de cumprir satisfatoriamente a razão da sua existência, seja no plano arquivístico seja no que toca à programação, se é que é possível distinguir claramente as duas vertentes.

Bom, mas alongo-me desnecessariamente e talvez até já tenha dito demais. Serei telegráfico daqui em diante.

No circuito comercial gostei muito de “La Fille de Nulle Part” (Brisseau), “In Another Country” (Hong Sang Soo), “Passion” (Brian de Palma), “Django Unchained” (Tarantino), “Barbara” (Petzold), “Like Someone in Love” (Kiarostami), “Side Effects” (Soderbergh). Penso que estes foram os melhores. O meu “guilty pleasure” de 2013, o filme que me trouxe uma parte da minha infância e me deu imenso gozo, foi “Rush”, de Ron Howard.

Em festivais – em que deixei escapar muita coisa que teria gostado de ver, como o último filme de Marcel Ophuls – vi dois filmes extraordinários: “E Agora? Lembra-me”, de Joaquim Pinto, e “The Immigrant” de James Gray. O primeiro terá estreia comercial em 2014, o segundo não se sabe. Também gostei de “Tip Top”, de Serge Bozon, que se revelou o entrevistado mais divertido em bastante tempo. E numa última nota (porque é um filme “antigo”), deu-me muito prazer ir ao frio do Fundão descobrir o magnífico “Rosa la Rose”, de Paul Vecchiali, apresentado pelo grande Bruno Andrade.

Na Cinemateca, apesar de tudo, não estivemos parados. De entre o que fizemos, o maior motivo de orgulho e satisfação foi ter sido possível apresentar uma integral Fritz Lang, exclusivamente em cópias-filme, de modo geral de boa qualidade. Esperamos que não tenha sido o “último hurrah”.

Luís Miguel Oliveira
(crítico de cinema / programador da Cinemateca Portuguesa, actualmente com o cargo de director de programação)