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ACONTECIMIENTOS 2013

PATRICIA SARAMAGO

 

 

 

Mudar de vida (Paulo Rocha, 1966)

 

O ano de 2013 começou com a triste notícia da morte de Paulo Rocha. Paulo Rocha realizou os filmes Verdes Anos (presente no Festival de Locarno em 1964, onde ganhou o prémio Vela D’Argento para a melhor primeira obra), A Ilha dos Amores (Cannes,1982) ou Rio do Ouro (Cannes,1998), por exemplo.

Mudar de Vida (1966) é um filme de que gosto muito. Um homem chega de África onde esteve na guerra, a sua mulher não esperou por si, casou-se com o seu irmão. 'Sabes bem que me estragaste a vida' diz ele a ela (os diálogos são de António Reis, realizador português também a conhecer obrigatoriamente para qualquer pessoa deste mundo ou de outro).

O filme passa-se no norte litoral, numa terra de pescadores onde o mar do oceano Atlântico é violento e por vezes enraivecido; ainda hoje todos os anos morrem pescadores, em trabalho.

Não há ninguém neste filme que não carregue um mistério, muito antigo e profundo. Mas num filme de Paulo Rocha uma angústia intensa pode-se transformar subitamente num momento de alegria e gargalhadas inesperadas.

Paulo Rocha foi professor da Escola Superior de Cinema em Lisboa, e eu tive a sorte de ter aulas com ele.

Lembro-me muitas vezes da sua crença, ou sabedoria, que para ele era essencial, de que a realidade existe numa espécie de equilíbrio de várias forças, energias, humores, que vão transitando entre si, e que por vezes parecem antagónicos, mas que ainda assim co-existem. A ideia de que depois de um gesto de sincera doçura pode sempre surgir um acto brutal e violento, ou vice-versa; que o que nos parece de certa maneira num momento, mais tarde já pode ser outra coisa; que a realidade pode transformar-se a toda a hora, e que devemos ter alerta a curiosidade, para que seja possível que a surpresa nos apareça. (Ainda me lembro do seu exemplo de uma cena hipotética: um casal de amantes, na cama, que começam a discutir política)

Naquelas aulas de cinema Paulo Rocha estava a preparar-nos, jovens, para viver a nossa própria vida como ela é: cheia de mistérios, contradições, revelações, sobressaltos, e idealmente vivê-la com coragem e com a consciência de toda a sua complexidade.

O filme que vi que mais me impressionou em 2013 foi 'E Agora? Lembra-me'/ 'What Now? Remind Me' de Joaquim Pinto, projectado em Novembro no Doc Lisboa, onde acabou por ganhar o prémio de melhor longa-metragem internacional (já tinha ganho vários prémios no Festival de Locarno) .

A memória que tenho construída nestes meses é a de um filme cristalino, de uma clareza, sinceridade e dignidade raras. Não há dispositivos dramáticos de sedução fácil, a estética não é virtuosa nem vaidosa, e no entanto, a beleza está sempre presente, no espírito e na matéria (aliás é dos poucos filmes que vi até hoje que me dá alguma esperança no futuro do vídeo na memória do cinema, filmado com câmaras HD a projecção foi em dcp e tão cristalina como o filme).

Seguimos os seus pensamentos que o próprio Joaquim Pinto nos conta, e seguimos a sua experiência, a sua vida, que vamos vendo e ouvindo filmadas: alguém a tentar saber mais sobre si próprio e sobre os outros no mundo, a questionar esse mundo, para si mas também para os outros, e principalmente, a sua procura da felicidade, no passado e no presente, os seus, o seu Amor, a sua família. Não devia ser sempre assim?

Vi em dvd ‘Cerro Negro’ de João Salaviza, uma curta-metragem de 2011 (e que esteve no Festival de Roterdão, penso que em 2012) .

É um filme de uma enorme subtileza. Sendo evidente a escolha política de um contexto social específico, dar voz aos que não a costumam ter no espaço público desta sociedade que se diz tão democrata (há algum imigrante estrela da tv? Deputado?), não se perde nem é ostensivo nas questões sociais, vai mais fundo, ao que é mais humano e universal, e que pode ser comum a todos sem excepção. Um casal separado, um pai e um filho, a solidão.

Há uma cena na sala de visitas da prisão, entre a mulher e o homem, que começa por parecer de uma grande frieza, uma formalidade entre familiares, num espaço agressivo, pouco falam, a mulher que visita o homem preso; e de repente juntam-se no mesmo plano, há um gesto de afecto, e tudo surge, a dor, o desejo, o amor, a tristeza.

Mesmo na cena anterior em que ela é revistada pela mulher-polícia e que normalmente em todos os filmes do mundo é uma situação em que o que é evidente é o jogo de poder, a humilhação, etc., neste filme a primeira coisa em que pensei foi que aquela mulher está cheia de sono porque esteve a noite toda a trabalhar e que ainda tem que passar por aquela chatice, enquanto a polícia faz o seu trabalho. A ideia do poder aqui é algo muito mais concreto e complexo, apesar de parecer sempre muito simples.

E depois um plano muito bonito: ele sozinho na cela, tenta ajeitar a antena da televisão na janela, e ali fica parado a ver a chuva que começa a caír.

Entre o terror e o suspense:
A produção de cinema português que teve um ano zero em 2012

(não há qualquer outro meio de financiamento válido para além do instituto – Ica), viu os concursos serem abertos na primeira metade do ano de 2013; mas em Fevereiro de 2014, segundo os dados públicos no próprio site do instituto, ainda só 1/4 desse valor foi distribuído pelos filmes a produzir.

No já frágil equilíbrio do cinema português, qualquer agressão pontual à sua existência levará gradualmente a que se torne só possível criá-lo, para realizadores e suas equipas, como um hobby, um part-time, uma paixão para fazer aos feriados e fins-semana, e como está a acontecer em tantas outras áreas a uma velocidade assustadora, fazer cinema, em Portugal, será mais um reflexo da realidade de uns privilegiados em relação a outros, o cinema, em Portugal, será definitivamente não para quem quer mas para quem pode.

Sinceramente, não sei como quer existir o meu país, se não quer criar a memória da sua existência.
(neste caso com o cinema mas infelizmente parece ser um ataque político, económico, ideológico, cultural, comum a todas as outras artes)

Nem Estado nem mercado:
É incompreensível que o último filme de Pedro Costa ‘Sweet Exorcist’,

que junto com mais 3 filmes realizados por Manoel de Oliveira, Aki Kaurismaki e Victor Erice faz parte do conjunto a que se chamou ‘Centro Histórico’, inserido nas comemorações de Guimarães capital europeia da cultura em 2012, apesar de já ter viajado pelo mundo todo não tenha tido ainda estreia comercial em Portugal.

Uma muito boa notícia:
Depois de termos visto fechar dezenas de salas de cinema por todo o

país, no Natal tivémos o anúncio da reabertura na Primavera de 2014 de uma das mais antigas salas de cinema de Lisboa (1904!) mesmo no centro da cidade; será o Cinema Ideal.

A responsável por esta proeza é a Midas Filmes de Pedro Borges , empresa distribuidora de filmes de Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Jia Zhang-Ke, Abbas Kiarostami, Aki Haurismaki, e tantos outros. Disse Pedro Borges quando apresentou o projecto: que as pessoas

“reganhem o gosto de ir ao cinema por ir ao cinema, apenas porque os filmes são bons, e não por uma outra coisa qualquer”.
Uma promessa de felicidade.

(Practicamente só falei de cinema português, não fiz de propósito)

Patrícia Saramago – montadora de filmes / cinéfila (Lisboa, Portugal)