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ACONTECIMIENTOS 2013

VASCO BARBEDO

 

 

 

A Ilha dos Amores, (Paulo Rocha, 1982)

 

Não há maior prazer que fazer novos amigos / Não há maior dor que uma cruel separação (uma das muitas cantigas de A Ilha dos Amores)

2013 foi o ano sem Paulo Rocha, que ainda conhecemos mal. A meio do ano chega-nos uma boa notícia contra este desconhecimento, a edição em DVD de toda a sua obra, e em Março, no Cinema Nimas, a Retrospectiva quase integral (excepto o último filme), e aí vi Vanitas.

1 – Em Novembro a descoberta, na Cinemateca, de A Ilha dos Amores (1982). A Ilha dos Amores é duplamente um exílio, do realizador e do personagem, o escritor Wenceslau de Moraes, no Japão, donde Wenceslau nunca mais sai, e é um Paulo Rocha desencantado com Portugal, logo no início, em Lisboa, os urros da proclamação da República soam na penumbra do quarto de Wenceslau (Luís Miguel Cintra) mas ele prefere distrair-se com Isabel (Clara Joana), nao ouvir o hino nacional,também cantado pela amante. Depois vai para o Japão, errante. É o filme desta deriva, desmesurado, nos inúmeros planos-sequências, na duração, no uso da música, mas também na “colagem”: da rima e do canto com o diálogo, do natural com o teatral, do biográfico com o imaginado.. O filme dos namoros no Japão e das cruéis separações, olhar com humor e crueldade a sorte e o azar, Dos projectos para o ano que vem / Ri-se o diabo / E bem. O filme mais incrível visto em 2013.

2 – De Brian de Palma, outro exílio, Passion. Integralmente filmado em Berlim, com director de fotografia espanhol, José Luís Alcaine, e remake de um filme francês, com produtor francês desse mesmo filme. Brian de Palma continua obcecado com a imagem digital, (e por isso com o “contemporâneo”), como em The Redacted, a sua multiplicação e o seu lado vertiginoso.

Fora Passion, os melhores filmes de 2013 vistos em sala: Barbara, de Christian Petzold, com Nina Hoss, E Agora, Lembra-me?, de Joaquim Pinto, o regresso do realizador de Uma Pedra no Bolso (1988), Bling Ring, Sofia Coppola, Like Someone in Love, Abbas Kiarostami.

3 – Não consegui acompanhar grande parte da Retrospectiva Integral do Fritz Lang na Cinemateca, mas revi dois fundamentais, os denominados anti-nazis, Hangmen Also Die (1943) e Man Hunt (1941), filmes de introdução à arte da resistência, que Lang conhecia tão bem. Aquilo que aparente não é nada, ou mera inocência, transfigura-se, oposição à realidade nazi, em Man Hunt, o alfinete de Joan Bennett, em Hangmen Also Die o folheto da tartaruga com a legenda “SLOW DOWN”.

Outro ciclo importante na Cinemateca foi Tesouros de Bolonha, em que foi exibido o Vampyr (1932), de Dreyer, numa cópia da Cineteca di Bologna, assim como o Foco no Arquivo, em Janeiro.

4 - The Clock (1945), de Vincent Minnelli, também na Cinemateca.

5 - Os filmes “menores” de realizadores já muito familiares. De Marguerite Duras, Le Camion (1977), Aurélia Steiner (1979), de Martin Scorsese, Italianamerican (1974), entrevista aos pais Scorsese, Alice Doesn’t Live Here Anymore (1974), The King of Comedy.

De Jorge Silva Melo, que teve a sua primeira retrospectiva integral no Festival do Estoril, em Novembro, pude também ver os seus “menores”, A Felicidade (2007), e o primeiro filme Passagem ou A Meio Caminho (1980). Já conhecia Agosto, e os vários documentários sobre artistas plásticos, como Álvaro Lapa: A Literatura (2007), sempre o mesmo interesse em fotografar o rosto - as hesitações, as pausas, o entusiasmo, a conversa.

 

Fernando Lopes em A Felicidade, (Jorge Silva Melo, 2007)

 

O Lugar do Real, um site a visitar, dá acesso a vários documentários portugueses “menores”, o extenso e detalhado Marginalia (1998) de Saguenail, making-off da rodagem do Rio do Ouro de Paulo Rocha, e Lisboa no Cinema (1994), de Manuel Mozos, sendo este último um trabalho de montagem fantástico de muitos filmes “lisboetas”, um verdadeiro mosaico.

 

Lisboa , a cidade “concentracionária” em Atlântida: Do Outro Lado do Espelho, (Daniel Del-Negro, 1985)
em Lisboa no Cinema, Um Ponto de Vista (Manuel Mozos, 1994)

 

6 – Descobrir, em casa, grande parte do Jacques Tourneur, o extraordinário Berlin Express (1948), Anne of the Indies (1951), Great Day in the Mourning (1956).

7Numa pesquisa e incursão à carreira de Henrique Espírito Santo, importante produtor e inovador do Cinema Novo, acabei a ler a crítica de cinema dos anos 60 portugueses, por exemplo César Monteiro, a escrever sobre Torn Curtain de Hitchcock (1967), e algumas entrevistas, algumas de Henrique Espírito Santo, que produziu Fragmentos de um Filme Esmola. É importante espreitar esses “verdes anos” da nossa crítica, o cinema português ainda tem algumas histórias por decifrar.

8 - O livro Cooperativa Grupo Zero e o Teatro da Cornucópia, pela Confederação, cineclube de Miragaia, e apresentado na Casa da Achada. Um estudo pertinente sobre a adaptação ao cinema das peças de Franz Xavier Kroetz, o cruzamento de uma companhia de teatro e produtora de cinema, no pós 25 de Abril, nos anos 1979-83, onde se encontravam Alberto Seixas Santos, Solveig Nordlund.

9 - Trás-os-Montes (1976), que já conhecia, foi exibido ciclo Harvard na Gulbenkian, e elogiado por Manuela Viegas, realizadora, professora de cinema, ex-aluna de Reis, num texto publicado na internet, umpercurso pela poética do António Reis, compreender a importância da materialidade nos seus filmes, "Pedaços de fábulas contra as pedras, cores e vozes. Materiais tornados nobres, algodões, lãs".

10 - Masterclass de Caroline Champetier no Festival do Cinema Francês, Lisboa. Alguns excertos dos seus filmes foram mostrados, cronologicamente, e faloudas sombras marcadas nos filmes de Akerman (Tout Un Nuit), do uso das cores primárias nos filmes do Godard, do valor dado ao volume e não à linha, e no trabalho de câmara com outros realizadores mais recentes.

Mais tarde, vi H Story (2001), de Nobuhiro Suwa, e aqui o trabalho de Champetier é quase exclusivamente a potencialidade da luz natural.

11 - Saudade (2006), de Valeska Grisebach, visto no ciclo Cinema no Feminino, Goethe e ABC Cineclube de Lisboa, numa história de brutalidade e tristeza passada na província alemã, num trabalho muito próximo aos actores.

12 - Casque d’Or (1952), de Jacques Becker, visto numa secção do Fantasporto, Porto.

 

Vasco Barbedo é licenciado em Imagem pela Escola Superior de Teatro e Cinema, e colaborador do ABC Cineclube de Lisboa.