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ACONTECIMIENTOS 2013

JORGE REIS

 

 

 

 

"Sweet Exorcism", en Centro Histórico (Pedro Costa, 2012)

 

Sabemos de Pedro Costa que, num mundo normal, poderíamos entrar num cinema e ver um filme do Tati ou do Chaplin e revê-lo no confronto com a rua. É no regresso à rua que encontramos o mundo de Tati (Playtime), os cartazes do Thom Andersen (Get Out of the Car) ou, com um pouco mais de sorte, o cantar dos pássaros de Straub e Huillet (Quei Loro Incontri). Este ano ao sair do cinema trouxe também comigo as casas do Ozu (Tokyo Story, An Autumn Afternoon), as cores e o quarto sobre o rio do Paulo Rocha (Rio do Ouro), as portas do Bresson (L’Argent). Será mesmo Juventude em Marcha o filme com mais portas na história do cinema?

Foi possível ver finalmente John Ford em grande! My Darling Clementine, Seven Women e Wings of Eagles ficaram comigo. Mas em casa volto regularmente a John Ford (The Shot Who Liberty Valance, Stagecoach...), estremeço com Dreyer (Ordet), e deixo-me queimar com os planos de Straub e Huillet (Trop Tot, Trop Tard) - a necessidade de se colocar no espaço, captar o vento e cartografar o mundo. Daí parto para Stroheim (Greed e Foolish Wives) e comprovo, além da existência do espaço, a perversão que o liga a João César Monteiro (Recordações da Casa Amarela, as mãos definhadas, o dinheiro na cama).

Sweet Exorcist viveu comigo durante o ano inteiro. Talvez seja uma questão de luz. Qualquer coisa muito antiga (o negro da noite, os verdes das árvores, os corpos iluminados) e também muito nova (a luz metálica ainda mais inabitável que o branco do Casal da Boba, um pesadelo). E ecoam as palavras de Straub: “a revolução não é a fuga para a frente rumo ao progresso, é o salto do tigre para aquilo que é passado.”

No Porto, o Sabor do Cinema esforça-se (esperemos que continue) por manter a normalidade do mundo aos domingos à tarde, oferecendo-nos de mãos abertas o cinema que é nosso (Paulo Rocha, Manoel de Oliveira, João César Monteiro). É que apesar de já existir a Casa Manoel de Oliveira (desenhada por Souto Moura – Reconversion, Thom Andersen) em estado de degradação e estar prevista outra obra com o mesmo propósito, é quase impossível ver os filmes antigos de Manoel de Oliveira no ecrã. É por isso que, no final do ano, assisto com esperança à abertura da Casa das Artes, e à promessa de programação regular. Estou desejoso de ver também os filmes de António Reis e mais de Paulo Rocha (inclusive Se Eu Fosse Ladrão...Roubava).

 

Edições

- O Quarto da Vanda foi editado em DVD, juntamente com o livro “Um Melro Dourado, Um Ramo de Flores, uma Colher de Prata”. Foi também editado o livro-processo-guião das filmagens de Casa de Lava pela Pierre Von Kleist.

- Começam a organizar-se os vários fascículos do futuro livro “O Lugar dos Ricos e dos Pobres no Cinema e na Arquitectura em Portugal” (serão gratuitos no site da DAFNE), resultado de uma série de conversas entre arquitectos e cineastas portugueses sobre um ciclo organizado por José Neves. Entre os cineastas contam-se Pedro Costa, Manoel de Oliveira, Fernando Lopes; entre os arquitectos Eduardo Souto Moura, Alexandre Alves Costa e Raúl Hestnes Ferreira (pai de Pedro Hestnes Ferreira).

Jorge Reis, estudante de arquitectura (FAUP)